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CAMPO & CIDADE

Trilhos da Bola

O futebol e sua trajetória em terras tupiniquins, eis algo instigante. Ainda mais agora lendo este primor de livro: “Quando o Futebol Andava
de Trem – Memórias de Times Ferroviários Brasileiros” -, de Ernani Buchmann.

Buchmann é antes de tudo um craque. De estilo leve, pinça ventos como diria Herculano Vicenzi. Descrições primorosas. Detalhes
inesperados saltam aos olhos em cada linha. Faíscas, dir-se-ia. Togado de Maria Fumaça – Ernani -, desvendas veredas e transpõe quebradas. Do arguto timoneiro, nada escapa. Como esportista das letras terça o verbo. Tece minuciosidades. Põe, destarte, lenha no caldeirão do tempo.

E se projeta, descortinando o avanço das estradas ferro e, concomitante a elas, o futebol. Arrebanha aficionados. Arroubo anglo-saxão que sempre empolgou multidões. Público cativo. E, como uma onda propaga-se Brasil afora. Surpreende. Viraliza. Motiva. Entusiasma.

Em cada Estação Ferroviária, em cada canteiro de obras, necessariamente rolava a bola. Campo de várzea, a única certeza. Traves
improvisadas. E pasmem! Disputas aguerridas. Ali, no picadeiro chefias e braçais trocavam confidências e apupos. Escalação. Improviso. Muita força, pouco juízo. Chuteiras, se havia. Salve-se quem puder. E o juiz, pobre juiz não podia ter mãe. Prevalecia, no entanto, a habilidade. “É ripa na chulipa e pimpa na gorduchinha” diria mais tarde o inesquecível narrador esportivo Osmar Santos. Isso lá no começo, mais tarde... hum! as famosas equipes ferroviárias. Muitas ferroviárias. Celeiro de craques.

A surpresa no périplo do Ernani: parte do sul do mundo: a singela cidade portuária de Rio Grande. Não se limita, porém, apenas ao “O
Óbvio Ululante” de Nelson Rodrigues. Quer mais. Avança pelas adjacências dos trilhos. Prospecta localidades ermas. Fareja. Cava
ribanceiras. Aflora personagens sui generis. Heróis dos arrabaldes. Descreve times, escalações. Atletas de nomeada. Campeões e perdedores. E, mutretas, claro não podiam passar despercebidas. Atem-se, no entanto, aos fatos marcantes, memoráveis ou pitorescos. Livro simplesmente arrebatador.

O Brasil que nasceu nas margens dos rios navegáveis. Bocas d’água. Esse país continente se consolida somente com a chegada do trem de ferro. Dos trilhos. Ernani perspicaz pesquisador, prova e comprova esse feito.

Malhas ferroviárias, espécies de teias de aranha, palmo a palmo, vararam os grotões. Diminuíram distâncias. Aproximaram feitorias. Agilizaram o transporte. Povoaram. Ergueram vilas.

Construí-las com os parcos recursos da época, um senhor desafio. Milhares de braços, muita inteligência. E competência. E, sobretudo,
ousadia. Não cabe aqui esgotar pormenores, mas apenas suscitá-los. Entretanto, como não negar: há lances simplesmente geniais. Rasgos
de ousadia do sul ao norte e do leste ao oeste, despontam no livro. Caso da ferrovia Mamoré-Madeira, uma tragédia anunciada. Daí, impossível não lê-lo de uma talagada só.

Ressalte-se, entretanto: há lances ousados, caso do Assalto ao Trem Pagador, não o de Bruce Reynolds e Ronald Biggs na Inglaterra, mas sim, aqui, e bem antes, pelas bandas de Caçador. Atrevimento de Zeca Vaccariano, cauby catarinense.

Em Três Barras, cena dantesca: o incêndio da Serraria Lumber Company do magnata norte americano Percival Farquart. É a Guerra do
Contestado, rebeldia do mundo jagunço à flor da pele. Ao longe, no horizonte, por noites e noites a fio, luzeiros iluminaram a vastidão dos
pinheirais do planalto norte catarinense.

Em minha juventude fui testemunha desse affaire margeando os trilhos. De mão, evoco o Clube Rio Grandense de Santa Maria(RS). Tardes
domingueiras memoráveis. A lembrança maior, no entanto, um circo sobre trilhos. Vagões lotados. Elefantes, onças, leões, girafas, zebras e o escambau. Isso em Apucarana. Para quem conhecia apenas bois, porcos e muares, gatos e cães, foi o máximo.

Em seguida a chegada triunfante em Porto União. A enchente cobria as baixadas, mas o trem, soberano, fumegava deslizando acima das
turbulentas águas do rio Iguaçu. E nós, nem aí. Tchau boa gente. Fuligem. Lenha. Era o trem de ferro qual víbora ensandecida dobrando espigões. Saudades.

Ernani, grato por evocar esses bons tempos. Esporte e desenvolvimento de mãos dadas para o gáudio de nossa boa gente. Ler este livro simplesmente nos encanta, percebe-se em cada linha respiros e suspiros de quero mais. Recomendamos.


Joinville, 30 de março de 2025

Onévio Antonio Zabot
Da Academia Joinvilense de Letras

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