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Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina de Auguste Saint-Hilaire, botânico francês. O ano 1820. Esse notável naturalista, nesse
périplo, não apenas coletou vegetais identificando-os, mas também espécies da fauna. E pasmem! 4.500 eram desconhecidas até então. Tal o alcance da expedição: 30 mil espécimes pertencentes a mais de 7 mil espécies de plantas coletadas. Certamente, um feito e tanto.
No prefácio do livro, o botânico Mário Guimarães Ferri, professor da USP destaca: “No Brasil Saint-Hilaire viajou por diversas Províncias
que correspondem hoje aos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, São Paulo Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em suas viagens coletou muito material botânico e zoológico e fez observações de interesse para a geografia, História e Etnografia, principalmente”.
Arrola também nomes de eminentes estudiosos e viajantes que aportaram em terras tupiniquins dos séculos XVIII a XX, entre os quais:
Langsdorff, Sellow, o princípe de Wied Neuewied, Sain-Hilaire, Spix, Martius, Schott, Raddi, Pohl, Burchell, Gardner, Lund, Warming, Regnell, Malme, Lindaman, Fritz Müller (de Blumenau e Desterro), Glaziou, Ule, Eschawege, Pilger, Taubert, Von Ihering, Huber, Dusén, Luetzelburg, Schlechter, Massart, Bouilléme, Wettstein, Loefgren, Schenck, Usteri, Noack, Brade, Rawicher, Schubart, Silberschimidt.
Notáveis essas expedições. Registros precisos e minuciosos que à luz da ciência descortinaram horizontes desconhecidos. Choque de
civilizações. A metaraça de Gilberto Freire, caldeando-se. Cadinho de povos.
Saint-Hilaire, na etapa-sul, começa pelos Campos Gerais. Contextualiza: “Esses campos constituem inegavelmente uma das mais
belas regiões que já percorri desde que cheguei à América; suas terras são menos planas e não se tornam tão monótonas como nas planícies de Beauce, mas ondulações do terreno não chegam a ser tão acentuadas de modo maneira a limitarem o horizonte”.
Inicia os registros do périplo nas circunvizinhanças de região de Castro e Tibagi, então província de São Paulo; isso em 26 de janeiro de
1820.
Destaca a beleza das mulheres. Os cuidados com o lar. Constata: “ Os homens estão sempre a cavalo e andam quase sempre a galope, levando um laço de couro preso à cela, no lombilho. E os meninos aprendem desde a mais tenra idade a atirar o laço, a formar o rodeio, e a correr atrás dos cavalos e dos bois”. Gado e cavalos à solta. A pastagem principal: o capim gordura; embora de origem africana deu-se tão bem que que costumavam chamá-la de naturalizado. Sobre o distrito de Castro, resume: “Três ou quatro comerciantes, prostitutas e alguns artesãos constituíam praticamente toda a população”.
Sobre as peripécias da expedição. Muitas, é certo. Acessos precários. Travessias de pântanos e riachos. Penhascos. Chuva. Acomodações precárias. Hospitalidade, as vezes cordial, mas nem sempre. Incursões dos índios coroados. Proteção do material coletado, a
preocupação. Expedi-los, um drama. Auxiliares pouco afeitos à disciplina, um desafio e tanto.
Sobre Curitiba dos pinhais relata: “Mostra-se tão deserta , no meio da semana, quanto a maioria das cidades do interior do Brasil. Ali, como
em inúmeros outros lugares, quase todos os seus habitantes são agricultores que vem à cidade nos domingos e dias santos, trazidos pelo
dever de assistir à missa”.
A descida da Serra. Sobressaltos. Despenhadeiros. Animalia em risco. E no litoral, o choque inesperado. Carro de boi e canoas, novo meio
de transporte. O roteiro: Paranaguá, São Francisco do Sul, Itajaí, Desterro e, por fim, Laguna e Mampituba.
Faz questão de traduzir termos indígenas. Por exemplo, Caiobá, casa dos macacos; Babitonga, morcego novo; Mampituba, rio de muitas
curvas. E assim por diante, um verdadeiro dicionário. Se ressente dos custos aqui, bem mais elevados do que nos roteiros anteriores.
Retem-se um tempo maior em Desterro, antiga Baía dos Perdidos, depois Porto dos Patos. A magnifica Ilha o deslumbra. População de cerca de 12 mil habitantes, dos quais 1/5, escravos.
Bem acolhido, prolonga a estadia. Visita localidades. É convidado até para casamento. Destaca os pomares bem cuidados. Frutas à rodo.
Laranjais. Muitos laranjais. Mas, sobretudo, pescados. Em face deste panorama, surpreendido declara: “Santa Catarina pode ser comparada a um vasto jardim inglês”. Abundância. Povo acolhedor. Mais mulheres do que homens, porém, uma certa permissividade à solta. Resultado:
crianças abandonadas. Abrigá-las, o drama do governador. Daí, embora a acolhida e a paisagem deslumbrante, deixar escapar: “Não são dotados de moral muita elevada”.
Elenca os principais itens exportados pela província de Santa Catarina: farinha de mandioca, alho, cebola, café, arroz, óleo de baleia,
cal, feijão, milho, amendoim, melado, madeira, couros, potes, de barro, peixes salgados, tecidos, de linho feito com mistura de cânhamo e
algodão(riscados). Mas o óleo de baleia, com a sobre explotação dos cetáceos, decaiu e, gradativamente, as armações foram desativadas.
Restaram as ruínas. Um, porém: constata baixa presença de escravos. Não concorda com esse regime, pondera, no entanto: “Todo mundo sabe de resto, que os brasileiros tratam os escravos com grande brandura”.
Sobre os desafios da época. Gargalos. Pizarro e Araújo, governador, citava: 1) falta de estradas; 2) serviço militar forçando os homens a
abandonar as lavouras e sua famílias; 3) costume dos governantes de se apossar das colheitas sem nada pagar.
Ah, um fato pitoresco, em contato com o Juiz de Fora - autoridade judicial à época -, a apreensão do mesmo sobre a jurisprudência
portuguesa: “Os juízes se viam constantemente embaraçados ao terem de escolher entre dezenas de leis que entravam em choque uma com as outras; a maioria das vezes eles davam as sentenças seguindo os ditames de sua consciência, se eram íntegros ou consultando seus interesses quando eram corruptos, o que mais era comum. O juiz queixou-se, com justa razão, da intromissão dos governadores das capitanias nas decisões do judiciário, mas ao mesmo tempo confessou que não havia nenhuma lei que estabelecesse de uma maneira clara os limites dos diferentes poderes. Esse era, evidentemente, um dos mais graves defeitos da organização interna do país”. Qualquer semelhança com os tempos atuais, estranha coincidência. Ou seja: “Tudo continua como dantes no reino de Abrantes”.
No dia 18 de maio, 1820, munido de cartas de recomendação, segue viagem rumo a Laguna e Aranguá. E no trajeto, enfim a agradável
surpresa em Garupava (do guarani ygacupa, enseada dos barcos), a presença da palmeira anã, o butiá. Ao longo de todo o trajeto, principalmente no litoral repetiam-se as espécies encontradas no Rio de Janeiro. Daí para um botânico, uma certa monotonia.
Sobre o butiá surpreendido, descreve-o com maestria: “Os frutos tem o tamanho de uma avelã; são carnudos, ovoides, glabros, amarelos e de sabor agradável, tendo um pequeno carroço que se assemelha ao de uma azeitona”.
E saber que hoje temos o roteiro do butiá em terras sulistas. Geleias, cachaça e licores. E trançados. Artesanato. Amor de palmeira. Majestosa. Rainha dos jardins.
Ler Auguste Saint-Hilaire é viajar no tempo (Editora Garnier, 2020). Recomendamos.
Joinville, 21 de agosto de 2025
Onévio Antonio Zabot
Engenheiro Agrônomo
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