Orelhões se despedem de Joinville após mais de 50 anos de história
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Foto: Divulgação -
Instalados pela primeira vez no início da década de 1970, os telefones públicos marcaram gerações, enfrentaram o vandalismo e agora se tornam símbolo de uma era superada pela telefonia móvel e pela internet
Com o avanço da telefonia móvel e da internet no Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) reconheceu o que já vinha sendo percebido pela população: os orelhões estão cada vez mais obsoletos e custosos para manter. Em Joinville, uma história de mais de cinco décadas caminha para o fim, encerrando um capítulo importante da comunicação urbana.
Os telefones públicos, popularmente conhecidos como orelhões, foram lançados no Brasil em 1972. O icônico design em formato de concha é um produto nacional, criado pela arquiteta Chu Ming Silveira, chinesa radicada no país. Joinville recebeu seus primeiros aparelhos praticamente junto com os grandes centros urbanos, entre 1972 e 1973.
Na época, Santa Catarina ainda não contava com a Telesc. O serviço de telecomunicações era prestado pelas empresas Cotesc e Satesc. Em junho de 1972, a Cotesc anunciou que instalaria telefones públicos em Joinville, Blumenau e Florianópolis, conforme noticiou o jornal O Estado, de Florianópolis.
Vale destacar que orelhão e telefone público não eram exatamente sinônimos. Em maio de 1973, Joinville possuía dez cabines telefônicas e um número um pouco maior de telefones públicos em ambientes fechados. Já os orelhões, aqueles instalados nas ruas, eram apenas quatro: no Mercado Municipal e nos colégios Celso Ramos, Santos Anjos e Bom Jesus. Bairros como Vila Nova, Costa e Silva e o final da rua Anita Garibaldi estavam na lista para receber os aparelhos.
Naquele tempo, as ligações eram feitas com fichas metálicas — motivo pelo qual os aparelhos também ficaram conhecidos como “moedeiros”. Anos depois, vieram os cartões telefônicos, que se tornaram objetos de coleção entre os chamados telecartofilistas.
A novidade chamou a atenção do poder público. Durante a 8ª legislatura da Câmara de Vereadores pós-Vargas, os parlamentares passaram a registrar pedidos oficiais à Satesc solicitando a instalação de orelhões em diferentes bairros da cidade, conforme informes legislativos publicados nos jornais da época.
Mas o encanto inicial logo deu lugar a um problema recorrente: o vandalismo. Ainda em 1973, a Satesc apelou à imprensa para conscientizar a população após registrar danos em aparelhos instalados no Colégio Bom Jesus, na rua Princesa Isabel e no Colégio Celso Ramos. Palitos de fósforo, pontas de cigarro e papéis dobrados eram colocados nos orifícios das fichas, comprometendo o funcionamento dos telefones.
A própria Câmara de Vereadores passou a incluir apelos em seus informes oficiais, pedindo que a população cuidasse dos novos equipamentos. Apesar disso, a depredação sempre elevou os custos de manutenção — fator que se tornou decisivo em um cenário em que a telefonia fixa perdeu espaço para os celulares.
Em janeiro de 2026, mudo e inoperante, um dos últimos telefones públicos de Joinville permanece em frente ao prédio do Legislativo municipal. Um símbolo silencioso, porém eloquente, de uma era que se apaga da paisagem urbana e da memória coletiva da cidade.

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