MEMÓRIA DE JOINVILLE
20 Maio 2021 09:24:00

Carta de leitor contesta publicação de história da Fundição Tupy

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Ary Silveira de Souza - Decorridos 34 anos, volto a escrever sobre o início de uma empresa, a maior de Joinville. Fatos não narrados na matéria que produzi para a o jornal O Estado,edição de 9 de março de 1987 (aniversário de Joinville) foram lembrados através de correspondência recebida de Martin Meyer, leitor residente em Blumenau, escrita em 22 de março de 1987, acrescentando informações ausentes na publicação. O missivista morreu há 33 anos.

Na carta datilografada o autor demonstra fartos conhecimentos sobre a história de nossa cidade, principalmente sobre as origens da maior empresa de Joinville. Chamado pelo Criador um ano depois de enviar a carta, o missivista natural da Alemanha, deixou um exemplo de trabalho e legado de cultura, respeito e amor ao Brasil.

O leitor inicia cumprimentado o repórter pela matéria que classifica de "excelente". Depois de citar que se refere ao conteúdo da página 15 do jornal O Estado, edição de 9 de março de 1987, título "Aspecto Industrial", a partir do ponto em que a matéria informa a data de fundação da empresa Fundição Tupy, em 9 de março de 1938, como uma pequena fundição de propriedade de Albano Schmidt, o missivista contesta o autor da matéria:

"Mera fantasia e longe da realidade". Mais adiante considera o repórter um "desinformado como quase todos os nossos conterrâneos em relação às autênticas raízes e a origem da Fundição "Seja-me permitido narrar-lhe, para a sua orientação, em breves traços, como realmente se deu a história, baseando-me, além das minhas recordações pessoais, em informações herdadas de pessoas envolvidas nos acontecimentos, já falecidas."

A história

"Tudo começou em 1908, quando o cidadão Frederico Birckolz, então dono de uma modesta ferraria colonial no centro de Joinville, convidou o mecânico August Klimmek para uma sociedade (capital 3 contos de reis) constituindo-se assim a primitiva firma Birckolz & Klimmek. Entretanto, o novo sócio, com ideias mais progressistas e pouco entusiasmado com a rotina de uma ferraria convencional (consertar carroças de colonos, ferrar cavalos, etc.), possuidor de vastos e sólidos conhecimentos e prática em engenharia mecânica, em fundição de metais, etc., adquiridos em longos anos de aprendizagem e de intensiva formação profissional, na Alemanha, tomou a iniciativa de ali instalar uma oficina mecânica, solda a oxigênio, absoluta novidade em Joinville e ainda uma modesta fundição de ferro, visando produzir uma boa linha de artigos para o comércio da colônia.

Assim, bem-sucedida a empresa, notadamente no setor mecânico, com construção de determinadas máquinas para as indústrias (têxteis, serrarias, etc.) que na época vinham se instalar na colônia/cidade, e fazendo-se sentir a falta de um engenheiro graduado, foi admitido na sociedade o engenheiro Enterlein e alterada a razão social para "Birckolz,Klimmek & Enterlein".

Anos mais tarde, depois da 1ª Guerra Mundial (que deu bastante impulso à empresa, devido a falta total de importações, durante alguns anos) agora já uma indústria em acelerada expansão, com já elevado número de operários. Foi construída aquela enorme e bonita área industrial, na esquina com a Senador Schmidt (próximo à Wetzel) infelizmente já demolida, pois foi lá o autêntico berço da Fundição Tupy, conforme logo veremos:"


"Em 1921, retirando-se da sociedade o Sr. August Klimmek (o mesmo que anos depois fundou a famosa indústria 'Condor' em São Bento do Sul) a firma prosseguiu sob a razão social de 'Birckolz & Enterlein' e mais tarde, tendo falecido o Sr. Frederico Birckholz e a consequente entrada de novos capitalistas, passou para 'Enterlain, Keller & Cia.' E, com o falecimento ainda do Sr. Enterlein, simplesmente 'Keller & Cia' - mais tarde transformada em Sociedade Anônima.

Foi nessa fase que Albano Schmidt entrou na empresa como simples funcionário. Jovem muito simpático, educadíssimo, dotado de invulgar inteligência e dinamismo, uma autêntica mola propulsora, aí iniciou a sua verdadeira carreira até alcançar, merecidamente, a liderança na empresa (na época, já uma potência, uma das maiores e mais destacadas indústrias de Joinville, com muitas centenas de operários) que Albano Schmidt transformou em 'Fundição Tupy' cuja história tem sido bastante divulgada.

Portanto, em 1938, já não era nenhuma pequena fundição de propriedade de Albano Schnidt', como se lê na citada publicação. Sem dúvida Albano Schmidt foi o maior gênio entre todos os industriais de sua geração neste Estado."

Atenciosas saudações

Martin Meyer - rua Iguaçu, 210 - Blumenau

A carta

Ao rever meu arquivo de textos e imagens acumulados por mais de meio século de atuação em emissoras de rádio e redação de jornais, o que faço com certa frequência, tive a atenção despertada por uma carta datilografa e ainda no interior do envelope original.

Recebi a correspondência assinada pelo leitor Martin Meyer, quando eu exercia a gerência do jornal O Estado, em Joinville. Em comemoração aos 132 anos de Joinville, produzimos o caderno especial focalizando vários aspectos da cidade, incluindo suas indústrias.

Ao fazer referência à Fundição Tupy, abri a matéria informando que em 9 de março de 1938 a empresa havia iniciado suas atividades a partir de uma pequena fundição. Conhecedor da história, o leitor não hesitou em contrariar o repórter e relatar a sua versão publicada agora, mais de 33 anos depois de seu falecimento.



Apesar de conter a identificação do remetente, incluindo nome completo, endereço e número da caixa postal, para a publicação da carta havia a vontade de conhecer melhor o missivista. Pesquisas indicaram que um empresário blumenauense com o mesmo sobrenome havia presidido a Acib - Associação Empresarial de Blumenau.

Depois de conseguir o número do celular ligamos para o ex-presidente da Acib,empresário Hans Martin Meyer. Nossa tarefa foi facilitada pela forma gentil com queatendeu nossa primeira ligação.Pediu desculpas por não poder se alongar na ligação, mas que ligaria mais tarde.Pouco tempo depois retornou e justificou o fato de não haver se alongado anteriormente por estar na cadeira do barbeiro. Falei a ele sobre a existência da carta de Martin Meyer. Foi a partir deste momento que aumentou o meu desejo de revelar o conteúdo da correspondência.

Ficamos sabendo que o empresário é filho de Martin Meyer, o autor da carta. Cordial durante toda a longa conversa, Hans Martin Meyer, presidente da Acib no período 1993/1997, fez curiosas revelações sobre a trajetória de seu pai desde a sua chegada no Brasil.

Natural da Alemanha, região da Baviera, Martin Meyer, contabilista formado, deixou seu país com destino a Blumenau. A bordo do navio conheceu um mecânico de bicicletas, também alemão, que tinha Joinville por destino. O mecânico informou que estava com emprego garantido na empresa Germano Stein, com importante atuação na venda de bicicletas. Antes de chegar ao porto de São Francisco do Sul o mecânico já havia conseguido alterar o destino de Martin.

Decidido a ficar em Joinville, Martin deixou o navio juntamente com o mecânico que já era esperado pelo empresário joinvilense, Germano Stein, a quem foi apresentado. Em ato contínuo recebeu convite para trabalhar na sua empresa. Entre outras funções na Germano Stein S/A., foi vendedor, gerente da filial da empresa na cidade de Mafra, entre outras.

Foi testemunha ocular de uma importante fase do desenvolvimento de Joinville. Seus conhecimentos sobre a história da Fundição Tupy foram enriquecidos por ter casado com uma filha de August Klimmek, que até 1921 foi sócio da empresa Birckolz, Klimmek & Ebterlein.

Agradecimentos

Ao autor da carta, Martin Meyer (in memoriam) pela disposição e altruísmo em transferir conhecimentos revelando sua versão sobre o início da Fundição Tupy, um entre muitos legados Ao empresário blumenauense Hans Martin Meyer, pela forma gentil com que atendeu nossos telefonemas, contribuindo decisivamente para acrescentar valiosas informações sobre a vida do missivista.

Ary Silveira de Souza

Jornalista, radialista e escritor

Editor do JI Online






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