Coluna das Artes

Portinari: O pintor das mazelas brasileiras - Elisa Silva

(Auto-retrato, 1956)

Em Brodósqui no ano de 1903 nascia o artista plástico brasileiro de maior importância no cenário internacional: Candido Portinari (1903-1962), ele foi pintor, gravador, ilustrador e professor, iniciou sua formação artística em 1920 na Escola Nacional de Belas Artes (Enba).

Em 1928 ganhou o cobiçado prêmio viagem e partiu para Europa, onde estudou as obras de mestres como Giotto (ca.1266-1337) e Piero della Francesca (ca.1415-1492). Além do mais, teve contato com expoentes da arte moderna como Picasso (1881-1973) e Modigliani (1884-1920), em diferentes épocas ambos influenciaram o trabalho de Portinari.

Candido Portinari variou as técnicas empregadas ao longo da sua carreira, porém a temática sempre foi a mesma: o homem brasileiro, sua história e as questões sociais que o envolviam. Seguindo o legado de Almeida Júnior (1850-1899), Portinari pretendia criar uma arte com características nacionais, mas ele vai muito além de Almeida Júnior, superando o regionalismo e retratando em seus personagens o resumo do povo brasileiro e dos seus problemas.

Quadros como o Mestiço (1934) e o Lavrador de Café (1934) trazem a conexão com a terra, os personagens são representados com mãos e pés muito grandes justamente para enfatizar a importância da força do trabalho. No ano seguinte, seguindo essa técnica ele pinta a obra denominada Café (1935), quando então ganha prêmio internacional do Carnegie Institute, de Pittsburgh, Estados Unidos, com isso Portinari torna-se o primeiro modernista brasileiro a ser premiado no exterior.

Em Nova York viu a Guernica (1937) de Pablo Picasso, o que mudou de vez a forma de pintar de Portinari, após essa visão seus quadros passaram a ter o caráter de denúncia, carregados de dramaticidade ao contar sobre o sofrimento do povo brasileiro, essa influência fica explícita nos quadros O Último Baluarte (1942) e O Massacre dos Inocentes (1943) e também nas obras que compõe a série retirantes (dois dos quadros que compõe referida série já foram abordados nesta coluna).

Em 1956 Portinari termina seu trabalho mais famoso os painéis Guerra e Paz (1953-1956) produzidos para sede da Organização das Nações Unidas, por essa obra o artista ganha o prêmio Guggenheim. Nos painéis podemos ver toda a trajetória do pintor, dos meninos de Brodósqui aos retirantes.

Apesar de Candido Portinari ter almejado desde o início retratar o povo brasileiro aos poucos esse retrato se transforma em uma grande crítica social, classificando-o como um dos artistas mais engajados que já existiram neste país.

Portinari dizia: "Aqui estou para afirmar que a pintura que se desliga do povo não é arte, mas sim um passatempo, um jogo de cores cuja mensagem vai de epiderme a epiderme. É de pequeno percurso, mesmo feita com inteligência e bom gosto, ela nada dirá ao nosso coração, uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende. Só o coração nos poderá tornar melhores e essa é a grande função da arte, não conheço nenhuma grande arte que não esteja intimamente ligada ao povo, as coisas comoventes ferem de morte o artista e sua única salvação é retransmitir a mensagem que recebe".

Não é à toa que os quadros de Portinari chocavam o público, porque os brasileiros endinheirados que tinham acesso as artes plásticas a viam como "diversão", então não queriam ser chacoalhados com a miséria dos seus compatriotas, eles preferiam fechar os olhos, como até hoje fazem.

Candido Portinari sofreu perseguições por parte do governo, justamente por pintar e retratar a miséria em seus quadros. Um dia perguntaram a Portinari por que ele pintava gente tão feia e miserável, ele então respondeu que fazia porque, olhando o mundo, era só o que via: miséria e desolação.

Apesar de triste, ainda hoje o que vemos é miséria e desolação, a diferença é que não temos mais um pintor tão fabuloso como Portinari para retratar tais mazelas.


Elisa Silva - especialista em História da Arte e autora dos livros " Paris sonho meu" e " Paris - Uma viagem impressionIsta"








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