CAMPO & CIDADE

Ousadia de Paulinelli - Onévio Zabot

Onévio Zabot - Engenheiro agrônomo e servidor de carreira da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) - Membro da Academia Joinvilense de Letras

Por ocasião do lançamento do Plano Safra 2021/22, o Engenheiro Agrônomo Alysson Paulinelli, ex-ministro da agricultura no governo Geisel discorreu sobre os fatores-chave que mudaram o cenário agrícola nacional.
Paulinelli, ao lado de Eliseu Alves e Glauco Olinger, este catarinense, são referências obrigatórias quando se fala em desenvolvimento agrícola. E, uma curiosidade: longevos. Glauco com seus 99 anos, Alysson, 95, e Eliseu, 91. Um Trinca de ases. E viver o suficiente para acompanhar a pujança da agropecuária brasileira,
uma dádiva.

Segundo Alysson Paulinelli na década de 1970, 1/3 da alimentos consumidores no país eram importados. Na época em razão de injunções internacionais o preço da comida disparou. Parte da população gastava metade de sua renda para adquiri-los.

Visando reverter tal cenário, em 1972, foi criada - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Em 1974 abre concurso público para contratar 1000 técnicos em ciências agrárias e áreas afins. Ato contínuo, o governo federal autoriza a contratação de um empréstimo no exterior no valor de 200 milhões de dólares. Objetivo: financiar bolsas de estudos para os recém contratados, a maioria das quais no exterior. É também criada a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater, 1974). Assim a assistência técnica chegava na ponta, ao produtor rural.

Assentado no tripé: pesquisa, assistência técnica e crédito rural inicia-se a grande transformação no campo. Mudança sem precedentes. Entidades estaduais integram-se ao processo, assim como universidades. Em
Santa Catarina destacaram a ACARESC, presente desde 1956, a ACARPESC e a EMPASC, hoje, Epagri. E também a COCAR, mais tarde incorporada à CIDASC. A UFSC cria o centro de ciências agrárias, o mesmo acontece na UDESC, campus de Lages.

A velha política do apadrinhamento e do paternalismo cedia espaço à qualificação profissional, tanto em nível técnico quanto dos produtores rurais. É o profissionalismo chegando ao campo. A palavra de ordem: produtividade.
Alysson Paulinelli destaca: - Em apenas cinco os resultados começam a aparecer. Três milhões de hectares foram incorporados à fronteira agrícola. O cerrado se consolida o novo celeiro do mundo.

Entre 1980 e 2000 o preço dos alimentos caem de um patamar de 100 para 30 pontos. Ou seja, redução de 70%, em média. E o percentual de renda gasta para adquiri-los para menos de 15% da renda média. Com isso, sobravam mais recursos para outros itens demandados pela população.
Essa expansão foi de tal magnitude que 150 novas cidades surgiram no rastro da expansão agropecuária. Cidades essas hoje modelares em termos de infraestrutura, suporte às ações de saúde, e educação.

E no Vale do São Francisco Eliseu Alves comanda a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASP). Incorpora a SUVALE ampliando competências e território. Hoje, a região se consolidou um polo de hortifrutis, destacando-se a produção de uvas finas e vinho de qualidade.
Alysson fez questão, no entanto, de ressaltar: quando lhe perguntam e que faltou. Não titubeia. Reconhece o eminente homem público que apenas 842 mil propriedades acessaram à modernidade. Outras 4,5 milhões não foram diretamente beneficiadas. É enfático. Não se concebe mais agricultura de subsistência. Há que
estar voltada para a geração de renda.

Ressalte-se, este resgate, gradativamente, vem sendo realizado pelo Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), implantado na década de 1990 por pressão do movimento sindical, e nos assentamentos da reforma agrária. Também reconhece que faltaram investimentos maciços em educação rural.
Lamenta não a ter atacado. Por fim, com visão de estadista, aponta para a América Tropical onde bolsões de
pobreza geram correntes migratórias. Entende que seria muito mais oportuno investir- se nesses ambientes onde a população reside, tirando-a do ciclo extrativismo do solo e dos recursos naturais, fator que agrava a pobreza.
Técnicos do gabarito de Alysson Paulinelli, Eliseu Alves e Glauco Olinger são apenas a ponta de iceberg de uma plêiade brilhantes de profissionais da área das ciências agrárias e afins que, decisivamente contribuíram para a transformação do campo nas últimas décadas.
Como as cadeias agropecuárias envolvem segmentos, a montante (insumos, máquinas e equipamentos) e jusante (agroindústria) o processo, adquiriu tal importância que responde por cerca de 2/3 do produto interino bruto brasileiro (PIB).
Exportamos para comida para 150 países. De 45 milhões de toneladas produzidas em 1975, saltamos para praticamente 300 milhões, previsão da CONAB para a safra 2021/22.
Arremata otimista Paulinelli: - Fico feliz porque a nova geração, a juventude, nos surpreende. Reconhece que atual ministra da Agricultura, a Engenheira Agrônoma Teresa Cristina, bem representa a nova geração de empreendedores rurais.

Enfatiza, a segurança alimentar é a base da pirâmide capaz de trazer a paz social. E a sustentabilidade, qual seja desenvolvimento econômico, social com cuidados ambientais, a alavanca propulsora de todo o processo.
Embora não tenha sido contemplado com o prêmio Nobel da Paz, sua consciência do dever cumprido orgulha a todos nós brasileiros. Suas pegadas, certamente, servem de exemplo às novas e futuras gerações.

Joinville, 10 de janeiro de 2022






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