CAMPO & CIDADE

Made in roça

Onévio Zabot - Engenheiro agrônomo e servidor de carreira da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) - Membro da Academia Joinvilense de Letras

Da redação -Onévio Zabot - 23h02min - 23/7/2022

Como diria Roberta Ramos, colega extensionista da Epagri, eis o neorural dando as caras. Rurbanidades para outros. Era o caso: Rogério, jovem camponês. Camiseta estampada. Vários dizeres. Sobressaia, porém: Made In Roça. Fazia questão de exibi-la, Rogério. Ou por outra, apresentar-se com tal. Roceiro. Boa praça. Alto, alourado. Barba espessa, própria dos povos nórdicos. Traços das etnias adentrantes nos subtrópicos. Com uma diferença, no entanto: e, em certo sentido, instigante: mantém-se apegado às lides do campo. Pelo duro, faz questão de ressaltar.

Na Feira de Mudas Frutíferas e Plantas Ornamentais, organizada pela Unidade de Desenvolvimento Rural, em Joinville, lá estava ele. Vendia humus. Maia, o provocava: - E as minhocas?! Humus em embalagens de diversos tamanhos, inclusive em sacas. Análise de solo à mão, apontava as propriedades do insumo. Não sem apontar quantitativos, em caso de uso. Pomar. Horta. Lavoura, enfim. Rogério é assim, que o conhece, sabe: determinado. Orgulha-se do que faz. Bom de briga, se preciso arregaça as mangas. Vai pra cima. Cacete à mão, mas da fala mansa. Várias vezes o vi em reuniões na Câmara de Vereadores e na Prefeitura. E também na comunidade.

Liderança em ascensão, certamente. A propriedade fica nas bandas do Rio Bonito, proximidade das estradas com o mesmo nome, famosa pelo pioneirismo quanto ao turismo rural. Joinville é um município originalíssimo, ressalte-se. Ao mesmo tempo em que é a maior cidade de Santa Catarina, conserva traços rurais únicos.
Singularidades que o destacam. Com a maior população rural do Estado. Mais de dezessete mil habitantes, surpreende os estatísticos de plantão, especialmente o IBGE. Alonga-se o município. Ao sul, deita os costados no Itinga, bandas de Araquari. Ao Norte, delimita-se com Garuva, ora recortando serras, ora planícies e várzeas entrecortadas de mananciais, como o rio Cavalinho. A oeste ousa escalar montanhas. Espicha as ventas pela estrada do rio do Júlio e Laranjeiras, não antes sem embrenhar-se nas vertentes quase inacessíveis.

Recôndito aconchego do Castelo dos Bugres, por exemplo. Ou nos saltos espetaculares do rio Cubatão e outros afluentes esporádicos que deitam espuma nos costões alcantilados. Montanhas azuis ao oeste, descrita em bico pena por Herculano Vicenzi. Poeta do campo. E, à leste. Bem aí é outro mundo. O Encontro da terra com o mar, encanta. Sobram rescaldos do alvorecer. Há os manguezais, berço da vida. As restingas providencias. E a Lagoa do Saguaçú. E a Baia da Babitonga. E tudo resplandece, não importa se ao amanhecer ou entardecer. Luminosidades da mãe natureza à vista. Benesses do bem querer. Certamente, um privilégio, conviver com cenário tão inusitado.

Emolduração da esperança. Divagações à parte, falava de Rogério. De sua ousadia. Na feira, pouco o sossego. Vendia às pencas. Adoidado. Carinho cheio. Entre uma água e outra, fazia questão, entanto, de manifestar uma profunda apreensão: querem cobrar Imposto Territorial e Predial Urbano (IPTU) da propriedade centenária da família, alcançada que foi, em parte, pelo perímetro urbano.
Inviabilizam-na, assim, pondera. Valores estorcivos. E a Secretária da Fazenda, ouvidos moucos, enfia a faca.
- Sou produtor rural, ressalta, mas não veem dessa forma. A vida inteira pagamos Imposto Territorial Rural (ITR). Qual a lógica disso agora, indaga? Olhar fulminante de viking contrariado. Pede ajuda. Alguma contribuição.
Cá com meus botões, cismo. Caramba este assunto estava resolvido a trocentos anos e voltou novamente. Lembrei-me da música: "Morto amordaçado, volta a incomodar".
Sim, há certos assuntos que são recorrentes. Mudam os detentores do poder e mudam-se a atitudes e a discussão retorna. Incrível isso. Qual a explicação? Ora, bitributação, qual a lógica? Ou um imposto ou outro, menos para os fazendários, havidos por receita.

Enquanto isso Rogério, jovem camponês, remanescente, batalha obstinadamente. Made in roça. Ordinalíssimo, certamente. E com que orgulho. Uma curiosidade: para descontrair: o termo roça provém de rupitiare, do latim. "Fazer brecha partir, quebrar. Limpar uma superfície de terra para o plantio". Enquanto Rogério tenta levar adiante a empreitada, especuladores imobiliários, capitaneados por agentes poucos afeitos ao meio rural parecem marchar na contramão.

Urge valorizarmos jovens como o Rogério, verdadeiro guardião da natureza. Jardinier de la nature, para os franceses. Seu apego ao campo, uma grata surpresa. Essa é a Pirabeiraba e por que não Joinville da boa gente do campo.
Com obstinação diuturnamente lutam para por comida na mesa de todos: um café farto, um pródigo almoço e uma boa janta. Existe causa mais nobre, por acaso. Certamente, não.
Joinville, 23 de julho de 2022



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