CAMPO & CIDADE

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SEIS ANOS SEM LUIZ HENRIQUE - Onévio Zabot

Onévio Zabot - Engenheiro agrônomo e servidor de carreira da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) - Membro da Academia Joinvilense de Letras

A data fatídica: 10 de maio, 2015. Seis anos, portanto, sem Luiz Henrique. Eis um líder instigante no campo do direito, na cultura e na política. E professor emérito. Incursionou no esporte: futebol de salão. E também na literatura. Segundo Joel Ghelen editor da obra: Quarentage, Luiz Henrique situa-se entre os grandes cronistas de seu tempo. Sempre Aos Domingos, título de outra obra, ao lado de Antenas & Raízes, revela o escritor maduro, contribuições preciosas consolidadas no jornal A Notícia.

Herculano Vicenzi - repórter dos grotões -, conta que Luiz Henrique não raras vezes, quando estava em Joinville, comparecia à redação e, após cumprimentar calorosamente jornalistas e funcionários, dirigia-se a uma Remington e, em poucos minutos redigia um artigo. Angariou com isso, respeito e admiração. E há também o Luiz Henrique, menos conhecido, porém não menos talentoso, o poeta. O poema Curva do Arroz, uma pérola: "Estar longe de Joinville/ é sentir uma dor no peito/, uma dor na alma/, que só acalma depois da Curva do Arroz" [...]. A Curva do Arroz, BR 101, situada na zona sul de Joinville, é enigmática. Simboliza a chegada. Sentimos isso quando nos afastamos de Joinville.

No campo do direito, como jovem advogado na terra dos príncipes - ousado -, inova. Sua presença foi tão impactante que empresas tiveram que adequar-se, montar departamentos jurídicos. Vociferava um empreendedor: - Doutor, assim você quebra todos nós. Referia-se ao direito trabalhista. Luiz Henrique mostrando a que veio, contribuindo, ponderava: - Tens que estruturar o setor jurídico. Os tempos mudaram.

Convidado para a diretoria de uma companhia de ponta, declina. Seu ideal era outro. Pedro Ivo, líder emedebista, depois governador, percebe seu potencial e o convida a ingressar no partido. Ato contínuo, é eleito deputado estadual, assumindo na vaga de Ivan Rodrigues que compunha a chapa de Pedro Ivo na condição de vice-prefeito. 

Confabulações à parte, no campo político tivemos o privilégio de conviver com Luiz Henrique enquanto prefeito, três mandatos, e deputado federal, governador e, por último, como senador. Visionário, porém, austero e zeloso com o dinheiro público. É lapidar sua frase: - Governar não é apenas definir prioridades, mas posteridades.

Nos idos de 1980 assumimos a direção da então Fundação 25 de Julho, braço agrícola da municipalidade. Reuniões do colegiado de governo ocorriam por lá, local acolhedor. Assim que assumimos, na primeira reunião, presentes entre outros: Mauro Moura (Obras), Marcos Wehmuth (Fazenda), Jaime Wiese (Serviços Públicos), Márcia Petry, Bem estar Social, Edla Jordan (Hospital São José), Amandus Finder (vereador, líder do governo) Miraci Deretti (Imprensa).


A pauta, em geral ampla, e os temas, quando polêmicos, eram submetidos à apreciação do colegiado. Não esqueço de uma dessas discussões. Mauro Moura defendia a terceirização de alguns serviços públicos, entre os quais contratação de obras. Oficina mecânica. Inclusive máquinas e equipamentos. Amandus Finder naquela sinceridade que o caracterizava, contrariado, exclama: Mauro, estou de acordo. Vou adotar a mesma prática lá em casa. Ao invés de andar com o meu carro, vou optar pelo táxi. Gargalhada geral.

Após o almoço, bandeia-se encosta acima rumo ao estábulo. Faro de gestor. Fila indiana o acompanha. Sol escaldante, a pino. A Fundação possuía um plantel de gado leiteiro, unidade didática. Lá pelas tantas enfiado atrás do estábulo, brada: - Zabot, Zabot, que é isso?! Sigo, vejo e não acredito. Sinceramente prefeito, ainda não tinha visto isso. Uma rural abandonada, enferrujava ao relento. Uma portentosa embaúba havia crescido, rompera o chassi, saíra pelo vão da porta, e apresentava-se numa altura razoável. A ordem foi clara e taxativa: - Providências imediatas. Tempos depois, devidamente reformada integrava a patrulha de controle ao borrachudo, praga que assolava o interior de Joinville. Luiz Henrique era assim: à frente de seu tempo surpreendia quando menos se esperava.

Outra feita, no segundo mandato de prefeito, o acompanhava próximo à Fábrica da Dohler. Atento, vai anotando numa caderneta inconsistências que encontra pelo caminho. Na avenida Marquês de Olinda, diante de uma cratera avantajada, liga para o Secretário de Obras, o fiel escudeiro, Manoel Mendonça. - Manoel, veja isso aqui. Ato contínuo liga para Udo Dohler, mais tarde prefeito de Joinville. - Udo quero parabeniza-lo, a praça adotada pela Dohler - praça do tecelão -, esta uma maravilha. Parabéns! Esse era Luiz Henrique um gestor perspicaz.

De outra feita, uma enxurrada de verão põe abaixo pontes no Distrito de Pirabeiraba. Prejuízo sem tamanho. Comunidades isoladas. Em visita, pondera: - Zabot, és um cara de sorte. Prefeito que é isso?! Como Secretário Distrital, estava sem rumo. Atônito com o inesperado cenário. Com a maior calma desse mundo, emenda: - Reconstruiremos tudo, e melhor. Fique tranquilo. A solução emergencial: a ponte de ferro do exército, batalhão de Porto União. Aciona diretamente o comando em Brasília. Assim era Luiz Henrique, efetivo e prático nos pequenos e nos grandes desafios. E, tudo a seu tempo foi reconstruído, inclusive a ponte Friedrich Piske, ponte símbolo de Pirabeiraba.

Quando em Pirabeiraba, não dispensava um pastel na lanchonete de dona Dilma Hubner, correligionária de primeira hora. Conversa descontraída. Animada. Dona Dilma, sempre afável, e bem humorada, um amor em pessoa.

Deus lhe dera o dom de circular entre o povo com desenvoltura, e ouvir com atenção. Jogar bocha no Cristo Rei, um bom passa-tempo; uma partida de dominó com os parceiros, uma diversão. E, sobretudo, a capacidade de articulação pouco importando a esfera, se estadual, federal ou internacional.

Dotado de uma memória fotográfica, surpreendia, citando fatos e pessoas, e escalações de futebol, seleções brasileiras, incluindo húngara de Puskás, 1956. Detalhe de obras não lhe escapavam, entre as quais o Centreventos Cau Hansen. Na festa da cumieira lavrou um tento e tanto.

Seguindo Ulysses Guimarães - turma do poire de pêra -, adotara a máxima: - É preciso ousar, pensar grande. Quem pensa pequeno, apequena-se. É preciso ser sol e não lua. Sol tem luz própria. Daí agir com ousadia, coragem e discernimento.

De todas as suas iniciativas, e não são poucas, pois foi Ministro da Ciência e Tecnologia, destaca-se, sem dúvida, a instalação da Escola do Ballet Bolshoi em Joinville. Feito memorável que ficará para a história. Ali, não importa a classe social, a origem, mais sim, o talento para a dança, para as artes.

Enquanto governador investiu na governabilidade. Na descentralização. E, ao constituir os Conselhos de Desenvolvimento Regionais e as Secretarias Regionais, incluiu a comunidade no processo de desenvolvimento. Escola alemã. Exercício de cidadania na prática.

Visando incentivar a cultura e o esporte, investiu nos Centro de Eventos. E, por fim, a obra quem tanto o orgulhava: o asfaltamento de todos os acessos às cidades catarinenses. Fazia questão de destacar Timbó Grande, reduto remoto do Contestado.

Visionário antecipou-se, percebendo que a cultura era a bola da vez. E que a terra dos príncipes não podia ficar à deriva. Apreciava a frase de Victor Hugo: - Não há força que resista uma ideia cujo tempo chegou".

Alvissaras, eterno mestre! que como poucos reuniu em si as premissas e virtudes indispensáveis de todo o líder político: cabeça, coração e pernas devidamente articulados. Ou por outra: inteligência, sensibilidade social e disposição para trabalhar incansavelmente não importava se de dia ou de noite, sábado ou domingo. Verdadeiro sacerdócio.

Ah, em tempo: seu rico acervo que se encontra no Diretório do MDB, em Joinville, expressa e revela a grandeza deste memorável líder. Político com P maiúsculo. A história, certamente, lhe fará justiça.

                                                            Joinville, 10 de maio de 2021




Jornal do Iririú

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