CAMPO & CIDADE

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SABEDORIA DE BACHMANN - Onévio Zabot

Onévio Zabot - Engenheiro agrônomo e servidor de carreira da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) - Membro da Academia Joinvilense de Letras

O extensionismo rural, eis algo instigante. Quando ouvi pela primeira vez a palavra extensão rural, não vislumbrei nada diferente. Ledo engano, porém. Formado em agronomia, coube-me esta missão. Sim uma missão. Ou por outra: um sacerdócio. E praticá-lo em Joinville, na terra dos príncipes, um privilégio. Nestas plagas deparei-me com Eugênio Bachamnn, arrozeiro na região da Vila Nova. Vozeirão de locutor, mas sobretudo tranquilo e consciente do seu affaire: produzir alimento. Percebia-se no seu olhar, um orgulho por essa nobre missão. Afável nos acolheu com galhardia, embora nossa pouca experiência.

Não foram poucas as tardes em que trocamos prosa nos tapumes da sua arrozeira. Curiosidade natural de ambos. Ele em buscar novas tecnologias, e eu a aprender com sua imensa sabedoria. Entre o técnico e o social, um causo aqui outro ali, e saborosas gargalhadas. O seu bom humor contagiava. Esbanjava otimismo. - Pra que reclamar da vida, se nós é que construímos ela, enfatizava. A escolha é livre. Eugênio fazia questão de ressaltar: - Esse é meu chão. Adoro o que faço. Não quero outra coisa na vida.

Eugênio faz parte de um grupo de jovens catarinense que assentaram praça no exército Rio de Janeiro, então capital federal. Escolhidos pela disciplina, postura e porte físico. Espigados, não negavam empreitada. Conheci vários deles no campo. Diferenciados, percebia-se. Bela escola, o exército. Arno Krelling, vereador em Pirabeiraba, sabendo disso insistia: - Temos que criar o batalhão agrícola. Outro vereador de Pirabeiraba, Durival Lopes Pereira, falava com orgulho desse tempo. O fato que o marcou para sempre: de plantão, servia no Palácio do Catete, na data de 24 de agosto de 1954, ouviu o estampido de arma de fogo que levou Getúlio Vargas. E, em seguida, a aglomeração, a comoção social. Narrava o fato com certo ar de nostalgia.


Pois é... sobre a extensão rural, conta-se que surgiu no vale do rio Nilo, no Egito.Monitores orientavam os camponeses a cultivar as ricas terras, férteis sedimentos aluviais depositados pelas cheias do grande rio. Mas foi na Grécia, no entanto, que senconsolidou. Conta a lenda de que o jovem Triptólemo de Elêusis, a pedido de Deméter- deusa da agricultura - Ceres para os romanos -, apanha um feixe de trigo e parte mundo afora. Ensina os povos a cultivar a terra, a semear e colher.

Deixam assim de ser nômades e circulantes; firmam raízes. Cessa a fome, e muitos conflitos. Triptólemo logra tanto exitoso na nobre missão. Como prêmio, recebe uma coroa de ouro de Core - filha de Deméter. E como Deméter e Core, agora sua esposa, passa a habitar o monte Olimpo, morada dos deuses.

Mais recentemente nos EEUU na grande corrida para oeste, passa fazer parte dos centros de ensino de ciências agrárias. E Knapp considerado o pai da extensão rural no continente americano ponderava: "Um homem pode duvidar do que ouve; pode também duvidar do que ele vê; não pode, porém, duvidar do que ele faz".

Em Santa Catarina, o serviço de extensão foi implantado em 1956 (projeto ETA- 17). Na sequência institui-se a ACARESC - Associação de Crédito e Extensão Rural de Santa Catarina, hoje Epagri. Coube ao governador Jorge Lacerda, e aos Engenheiros

Agrônomos João Maria Cavalazzi e Glauco Olinger, o último, o grande timoneiro, levar a missão a termo. Em convênio com os municípios a equipe era composta de técnico com formação em ciências agrárias, extensionista social e auxiliar de escritório.

Ressalte-se, além do trabalho do técnico, a ação da extensionista social no que tange à nutrição e educação sanitária desempenhou papel estratégico no suporte familiar. Não há dúvida, se Santa Catarina é o que é hoje - um Estado de excelência na gropecuária, com um sistema cooperativo sólido -, muito deve-se ao trabalho dos extensionistas. Desbravadores e inovadores por excelência.

Divagações à parte, falava de Eugênio Backmann, figura humana ímpar, de virtudes raras. Um fato daquele bom tempo não há como não evoca-lo. Contava Eugênio que ao assentar praça no exército, o chefe imediato o chamou, instava-o a assumir o serviço de enfermaria do quartel. Seria orientado, receberia a devida qualificação.

Eugênio na sua simplicidade, declina do convite, e pergunta: - Não tem serviço de roçada? Isso sei fazer. Tenho gosto. O chefe não convencido oferece outra opção: então barbearia. Também dispensa. - Então, já que é de sua vontade, que seja a roçada, retruca o interlocutor. Estranha, pois não comum entre os recrutas, este tipo de escolha.

Esse era Eugênio, e sempre foi, um homem com orgulho das lidas do campo. E como arrozeiro era dos bons, dos melhores. Ali tudo era um capricho só. Passaram-se os tempos, dia desses nos encontramos, e com que alegria. E ele lisonjeiro, emenda: - Pena não termos conversado mais, mas isso, no entanto, pouco importa.

Importa, sim, a boa lembrança, a boa prosa, a amizade. Essa é eterna. Seu Eugênio - com todo o respeito -, com que orgulho o tenho entre os bravos construtores de nossa pátria.

Joinville, 01 de maio de 2021




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