CALIGRAFIA DE MARINA

CALIGRAFIA DE MARINA

Liberdade - Marina Martins

Marina Martins é formada em letras português, inglês e literaturas e atua como professora de línguas no Instituto Federal Catarinense, em São Francisco do Sul. Sua incursão em uma escrita sistemática iniciou-se junto com as transformações da pandemia: criou o blog de crônicas vaguidaoespecífica.blogspot.com.br. Afinal, a literatura não poderia ser melhor maneira de transformar o real.

Dentro de um canavial o negro se libertou

E lá não tinha pra ele nem chibata e nem feitor

E lá não tinha pra ele nem senzala e nem senhor

Um grito de liberdade (ponto de umbanda)

O velho sentou para descansar. Sabia que não podia, que seria castigado se fosse encontrado, mas precisava. Já não era mais o mesmo de antes. Suas pernas agora fraquejavam. Precisava por vezes sentar. Sabia que tinha que terminar aquele lote hoje, mesmo que já fosse escuro. Tudo bem, estava acostumado com a escuridão. Não conhecia mais que a luz do sol. Conhecia a escuridão da noite. A escuridão do trabalho. Eles mesmos escuridão. Passa um pano para limpar o suor da testa. Respira fundo. Tinha que continuar, se ainda quisesse terminar hoje. Não sabia quanto tempo mais tinha de vida, mas tinha que continuar... Alguém se aproxima. Levanta-se logo.

_ Pai ! Aconteceu pai ! Aconteceu 

_ O que meu fio?

_ Ela assinô, a princesa assinô!

_ Assinô u quê?

_ U fim da escravidão, meu pai ! Agora a gente num é mais escravo !

O velho se sentou de novo. Passou o pano na testa.

_ Pai ! O senhor num ouviu ? A gente num é mais escravo ! O senhor num precisa mais trabaiá !

O velho estava confuso. Não sabia bem o que pensar.

_ Pai ? Entendeu ? Acabô...

_ Sim, sim. Intendi. Mas, i aí... A gente vai simbora da fazenda...?

_ Issu ! A gente num pricisa mais fica aqui, vamu para bem longe.

_ Longe...? Onde ?

_ Ãh.. Pra cidade... Sei lá.

_ Hm...

_ ...

Não era que quisesse continuar escravo. Isso era certo que não. Aprendera desde menino a sonhar com a liberdade, com o momento em que seria seu próprio dono, que comandaria seu destino. Mas também aprendera que isso era difícil, muito difícil... E agora que tinha acontecido não sabia o que pensar. Parecia que não era real. Havia vivido tempo demais como escravo para desconfiar da felicidade.

_ I a gente vai vivê de quê ?

_ Ora pai, di trabaio. Eu trabaio por nós dois. O pai já trabaiô dimais nessa vida.

_ Mas, i quem vai nus dá emprego ? A gente é preto...

_ Ah num sei, sempre tem né... Sempre tem...

Os dois ficam em silêncio.

_ Mas u pai... U pai quiria continua morando aqui ? Sendo escravo ?

_ Não fio, não. Imagina. Claro que não. É que num sei. Tenhu medo... Parece qui esse documento da dona princesa não podi nus protegê...

_ Mas agora a gente num é mais escravo pai, ninguém podi nos castiga.

_ Mas e si a gente num é mais escravo... A gente é o que então ? É igual branco...?

_ Ah pai, num sei... A gente é omi ora.

Vê que o filho parece impaciente.

_ Mas isso sô eu, dando aqui uma de véio cabrero. Vai fica bem sim meu fio. É claro que eu tô feliz.

_ Tão organizando uma festa agora di noite na senzala... Vai pai, vai sê bom.

_ Claro fio. Vô sim. Vô sim...

E o rapaz sai para ajudar nos preparativos da festa. E o velho fica sentado. O sol está se pondo. Todo o horizonte é laranja. Contrasta com a sombra preta do chão. Não sabia explicar o que sentia. Essa sensação no peito. Uma espécie de alegria doída. De dor alegrada. Estava preocupado. Sabia que, às vezes, a miséria podia ser mais pesada que o chicote. Havia tempo desaprendera a acreditar. Talvez fosse quando, ainda criança, vira seu pai morrer na sua frente, enforcado depois de uma fuga mal sucedida. Lembrava de como havia se preparado. Meses, juntando tudo, definindo, planejando. Lembrava de como sua mãe o apoiara.

De como tentaria o seguir depois. Tinham sorte. Eram das poucas famílias que deixavam ficar junto. Escravo não era para ter pai. Escravo não era para ter família. Lembrava disso claramente. Mas lembrava ainda mais do fim. Dele balançando como um saco na árvore. Um saco com pernas e braços. Lembrava do grito de sua mãe. Dos seus olhos fixos vendo o nada. E agora ? Agora, não precisara fugir. A liberdade lhe havia sido dada... Dada por um documento.

Será que isso queria dizer que era homem ? Que as pessoas lhe acenariam na rua ? Os brancos tirariam o chapéu para ele, para lhe cumprimentar ? Isso queria dizer que... usaria um chapéu ? Chapéu de verdade. Chapéu de cortesia, não para proteger do sol ? E essa simples possibilidade como que acendeu uma pequena luz em seu coração. Respeitaria e teria respeito de volta. Sorri um leve sorriso. O horizonte já está rosa, um pouco de lilás. Ouve o início dos festejos na senzala. Decide ficar ali. Ainda era tempo de comemorar baixinho. Pensa isso enquanto observa o lote que ficou por carpir.







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