Coluna das Artes

Anita Malfatti: A pioneira - Elisa Silva

Foto: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
A Boba, 1915-1916

"Tomei a liberdade de pintar a meu modo".
A própria Anita Malfatti denominou assim o que é considerada a sua última fase. A bem da verdade, a denominação é uma espécie de desabafo de uma artista que foi criticada pela família, pela sociedade e até mesmo pelos seus pares, os quais não foram capazes de compreender as inúmeras mudanças na trajetória da pintora.

Anita teve uma vida marcada pela tragédia, nasceu com uma atrofia congênita no braço e na mão direita, que obrigou a pintora a desenvolver habilidades com a mão esquerda. Superada, na medida do possível, a doença, em 1901, seu pai morre precocemente, o que obriga a família a se mudar para a casa dos avós, a alteração de endereço implicou também em mudança de escola.
A artista deixou uma escola católica para frequentar uma escola presbiteriana, essa duplicidade de orientação religiosa esteve presente em toda a vida da pintora, influenciando sua obra.

 Aos 13 anos, Anita, consumida pela incerteza quanto ao seu futuro, comete um ato supremo de desespero. E o ato, que poderia ter causado sua morte, acaba sendo o momento da revelação da sua vocação artística.
Anita deitou-se debaixo dos dormentes dos trilhos perto da sua casa e esperou o trem passar por cima dela. O barulho ensurdecedor e o calor asfixiante levaram a artista, literalmente, ao delírio. Durante a alucinação ela vislumbrou um mundo de cores, após essa experiência colorida, ela sabia: queria ser pintora!
Diferente das meninas da época, Anita não pensava em casamento, ela só desejava uma coisa: estudar pintura na Europa, mas suas condições financeiras não permitiam mais do que sonhar. Porém, sua sorte mudou e, após convite da família Salders, ela conseguiu o apoio financeiro do seu tio George Krug, embarcando para Alemanha em 1910.

A Alemanha no início do século XX centralizava a efervescência dos movimentos de vanguarda. Anita teve a oportunidade de apreciar tudo isso em primeira mão, ela estudou com vários professores. Contudo, foi Lovis Corinth (1858-1925) quem mais exerceu influência na jovem, incentivando-a a explorar as cores.
Os rumores sobre uma guerra assolavam a Europa e precipitaram o retorno de Anita ao Brasil. Chegando aqui, ela promoveu sua primeira exposição individual, que transcorreu sem intercorrências ou repercussão. Sua família entendendo que a artista ainda não estava pronta, financiou uma nova viagem de estudos, desta vez para Nova Iorque.

Nos Estados Unidos Anita desabrochou e aperfeiçoou o que tinha aprendido na Europa, produzindo suas obras mais importantes. Nesta fase, considerada a segunda, a pintora abusou das cores, da distorção e da dramaticidade, apresentando um trabalho original e vigoroso, obras como "O homem amarelo" e "A boba" são desta fase. Foi sua época mais feliz, mais livre.
Essa felicidade termina com seu retorno ao Brasil e com as críticas que seu trabalho recebeu, a mentalidade provinciana dos brasileiros não entendia as vanguardas e tampouco a originalidade das obras de Anita.
Após alguma insistência, Di Cavalcanti e Menotti del Picchia convenceram Anita a realizar uma exposição com os quadros produzidos nos Estados Unidos. Atendendo ao pedido, ela realizou a exposição e acrescentou obras de alguns colegas americanos. Esta foi a fatídica exposição de 1917, que recebeu a famosa e feroz crítica de Monteiro Lobato no texto denominado Paranoia ou Mistificação.

De fato, Monteiro Lobato estava criticando as vanguardas, porém a repercussão negativa do texto atingiu em cheio Anita Malfatti, inclusive obras vendidas foram devolvidas. Apesar de não ser possível atribuir exclusivamente a essa crítica, é certo que a artista mudou a trajetória das suas obras depois do episódio.
Anita participou da semana de arte moderna, sendo ela considerada a pioneira e um dos pilares do movimento modernista no país. Durante o evento de 1922, a artista reencontra Mario de Andrade, eles se conheceram na exposição de 1917, e os dois vão protagonizar uma das histórias de amizade mais bonita do mundo das artes, sendo que a correspondência entre eles pode ser comparada apenas a de Théo com Van Gogh.

Além de Mario, Anita aproximou-se de Oswald de Andrade e Menotti del Picchia e também de Tarcila do Amaral.  Anita e Tarcila se conheceram no ateliê de Pedro Alexandrino. E assim estava formado o "grupo dos cinco", eles trabalhavam e se divertiam ao mesmo tempo, concentrando muito da produção modernistas da época.
Em 1923, com a ajuda dos amigos e de Olívia Guedes Penteado, Anita é agraciada com uma bolsa de estudos do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, partindo para Paris. Na capital francesa ela participou de inúmeras exposições e mostras coletivas. Este período é marcado por muita irregularidade e uma mudança drástica no seu estilo, surpreendentemente ao voltar para o Brasil Anita Malfatti era uma artista clássica.

A guinada não passou despercebida pelos amigos, eles ficaram decepcionados, porque, ao que tudo indicava, Anita não mais partilhava dos ideais modernistas. Esta época foi marcada por muitas dificuldades para a artista, que não conseguia sobreviver apenas de arte, sendo obrigada a dar aulas para garantir sua subsistência.
Este período é considerado sua terceira fase, sua produção resumia-se a retratos e flores, pois eram temáticas fáceis de vender. Anita ainda passa por uma quarta fase, que perdurou até o fim da sua vida, nesta última suas obras se aproximam do primitivismo, apesar de que a artista alega não se tratar de primitivismo ou folclore, mas sim de uma arte popular brasileira, o cotidiano era sua temática.
É desta fase o quadro Época de Colonização (1939), a pintura foi recusada no Salão Oficial de Belas-Artes do Rio de Janeiro, Anita atribuiu essa recusa a Mario de Andrade, o que motivou o rompimento da amizade entre os dois.

Anita e Mario de Andrade nunca mais reataram a amizade, nem mesmo quando o escritor escreveu uma poesia em homenagem a pintora, ela não o perdoou.
Em 1945, Mario de Andrade falece e Anita fica profundamente abalada, esta tristeza foi sentida em sua obra e perdurou por muito tempo. Dez anos depois da morte de Mario, Anita escreveu uma carta póstuma para ele, contando as mudanças ocorridas em São Paulo (Nossa Paulicéia não é mais desvairada e sim avoada), justificando suas mudanças de estilo e reconhecendo que desapontou o amigo. A carta é um pedido de perdão para ele e para si.

Anita, apesar da idade e das dificuldades, permaneceu ativa no mundo artístico. Finalmente, em 1963, atendendo a pedidos de críticos e jornalistas, a VII Bienal de São Paulo destinou uma sala especial para a artista. Aproximadamente um ano depois, Anita Malfatti faleceu e com ela desapareceu a personalidade mais importante do modernismo brasileiro.                                                           






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