Coluna das Artes

A Negra: Estereótipo Nacional

Foto: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
A Negra, 1923

Da redação - Elisa Silva - 7/7/2022 - 16h59min

"Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra". Essas são as palavras de Tarsila do Amaral em uma carta que escreveu para seus pais, no mês de abril de 1923, enquanto estudava artes em Paris. De fato, as pinturas de Tarsila são povoadas das suas recordações de infância, memórias de uma infância farta vivida em uma fazenda de café.

A pintora se lembrava das amas de leite e das babás negras, A Negra é a personificação de todas elas. No quadro vemos uma mulher sentada no chão de pernas e braços cruzados, como que amarrada em si, sobre o braço pende um pesado seio, retratando sua função na casa grande: Ama de leite.

O seio proeminente remete a uma história do tempo da escravidão, reza a lenda que era comum mulheres negras atar pedras aos seios para que eles distendessem e assim elas pudessem amamentar seus filhos amarrados às costas, sem interromper o trabalho. O retrato é a imagem do Brasil escravagista, a pose da personagem revela sua submissão forçada, seus olhos traduzem sua trajetória de miséria, com apropriação indevida do seu corpo e da sua alma.

O objetivo da Tarcila do Amaral era praticar uma arte genuinamente brasileira, sem influência europeia. Na verdade, esse era o objetivo de todos os artistas modernistas. O retrato de natureza primitivista, moda naquele tempo, atualmente é controverso e estereotipado.

A questão a ser discutida é que uma temática genuinamente brasileira está diretamente ligada a temática negra e da exploração do trabalho. Portanto, a arte modernista é, por excelência, uma arte de crítica social, apesar de que muitos artistas do período assim não a percebiam, limitando-se ao campo estético.

Tarcila do Amaral em uma fase mais adulta da sua carreira adotou uma postura de maior engajamento social, porém na causa operária. Na época em que o quadro foi criado é possível que a artista apenas desejasse retratar brasilidades, mas hoje, ao olharmos A Negra, vemos o espectro da escravidão e os efeitos deletérios que esse período causou e causa na sociedade até os dias atuais. A Negra é sem dúvida uma pintura atemporal.   
                                                       




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